Manifesto Autodidata
Por que os atuais modelos de educação em quase todo o mundo estão em
declínio? Quais as ferramentas que hoje podemos acessar para construir nossa
própria teia de conhecimentos e nossa profissão diferenciada? Por que o
autodidatismo está se tornando cada vez mais usual e poderá vir a ser
normatizado num futuro próximo? Quais são as características e possibilidades
desse modo de aprendizado?
As primeiras respostas são simples: o conhecimento se encontra cada vez
mais descentralizado, diversificado, mutante e à disposição de todos. Além
disso, tão diferentes dos modelos anteriores, algumas das principais exigências
profissionais e, consequentemente, educacionais, passaram a ser criatividade, capacidade
de autoaprendizagem, subjetividade e pensamento crítico.
Há hoje uma profunda e urgente necessidade de profissionais com essas
qualidades no mercado. Um dos principais motivos é que as empresas, em todos os
seus setores, caso pretendam permanecer no mercado, têm como tarefa
imprescindível a inovação. Portanto, precisam como nunca precisaram, de profissionais
criativos e inovadores.
Trata-se de um fenômeno inédito na história da humanidade. Chega a ser
irônico o atual momento do mundo, em que a máquina de poder, que sempre foi a
maior responsável pelo achatamento das mentalidades, agora, para continuar
funcionando precisa tornar a população mais educada, mais inteligente e mais
crítica. Do contrário, não haverá criatividade suficiente para sustentar a
estrutura cada vez mais complexa e revolucionária.
Já respondendo a essa demanda, mesmo sem nos darmos conta, temos nos
tornado mais autodidatas no trabalho, na escola e em nossos saberes pessoais. E
caso queiramos construir nosso futuro sem permitir que outros o construam por
nós, é preciso pensar em como gastaremos o tempo de estudo, para juntar as
peças de nosso quebracabeça diferenciado, único, preferencialmente de acordo
com nossas mais íntimas aspirações profissionais e ao mesmo tempo de vida.
Por outro lado, ninguém pode ser inteiramente autodidata. Os
conhecimentos são transmitidos de uma pessoa para outra, desde o início da
humanidade; e até antes. E não é preciso dizer que ainda hoje necessitamos,
tanto quanto em outras épocas, de pessoas que nos transmitam seus
conhecimentos, sem os quais não construímos nossa teia cognitiva.
Mas em que medida os atuais atravessadores
da educação colaboram para uma educação positiva e o quanto diminuem nosso
poder de autoaprendizagem, além de nossa subjetividade, criatividade e
originalidade?
Uma coisa é certa: não existe um modelo ideal
de educação, por não haver modelo ideal de cognição e muito menos de
comportamento. A ideia do que deveria ser a forma de ensino mais adequada,
também se torna obscura em função da acelerada transformação da sociedade, que
vai se tornando cada vez mais imprevisível quanto aos seus próximos mercados,
estruturas e comportamentos.
A verdade que ninguém quer admitir é que,
atualmente, muito pouco se sabe para que mundo educar o aluno, e se saberá cada
vez menos.
Não
é uma das tarefas mais simples, porém, imaginar que devamos hoje mesmo iniciar
esse processo de independência intelectual, embora o possamos fazer. O próprio conceito de autoaprendizagem, um dos mais citados nas
novas propostas oficiais de educação em todo o mundo, em certa medida oficializa
o autodidatismo.
A questão, portanto, torna-se a seguinte:
como organizar e combinar os saberes a nosso favor, de um modo que nos faça ser
o máximo possível nós mesmos e nos permita explorar o melhor de nosso potencial,
para que ofereçamos isso ao mundo, menos adequando-nos a ele e mais o
transformando com nossa contribuição única?
Os donos da educação
A escola, como hoje a conhecemos, das
matérias abordadas, mais utilitaristas e menos humanistas, até o fato de ter se
voltado para as massas, foi instituída a partir da Revolução Industrial, para
suprir o gigantesco novo mercado de trabalho que se formou com o avanço das
máquinas.
O mercado, portanto, desde essa época vêm
determinando os conteúdos escolares e, por consequência, o que hoje entendemos
por educação. A própria educação, em muitos sentidos, foi uma das maiores
responsáveis pela construção do mundo em que hoje vivemos. Nossos valores e
comportamentos, além do cenário social e a estrutura econômica mundial, enfim,
esse caos de desigualdades, guerras, destruição ambiental, consumo desenfreado
etc, de muitas maneiras foram e continuam sendo moldados ou incentivados pela escola.
É difícil aceitar o fato de que as escolas jogam
a favor desse sistema. Mas o fazem. Achatam nossa criatividade e subjetividade,
além de nosso pensamento crítico. Tentam nos impor a vontade e as ideologias dos
mais poderosos, incentivando a desigualdade. Subtraem o valor de nosso tempo,
ao nos transmitir conteúdos que logo serão esquecidos. Mesmo o que resta de
conhecimento, pouco contribui para nos tornar pessoas melhores, mais benéficas
ao mundo e mais felizes. Incutem ideias de competição selvagem, de tantos modos
que sequer podemos contabilizar, em pequenas observações, críticas,
condenações, punições e retaliações cotidianas. "Se não estudar, morrerá
pobre". "Quer ficar rico, estude". Isso, num mundo onde cabe
somente uma pequena fração da população no grupo dos ricos.
Mas esses são apenas dois meros exemplos
entre tantos outros. Sem contar os "burros" que não aprendem. Os
"preguiçosos" que não se esforçam. Os "mal-criados" que
desafiam o professor. Os "cabeças de vento" que não prestam atenção
na aula. E o que dizer da organização das carteiras, que nos faz parecer um
produto numa esteira de fábrica? E sobre as matérias nauseantes; os professores
despreparados e autoritários; a não observação das vocações e dos talentos
individuais; a teoria pura em detrimento da prática; o decoreba em detrimento
do raciocínio; as matérias desconectadas umas das outras; a permanente
reafirmação de como o mundo deve funcionar?
As leis, por sua vez, ao reconhecerem a
escola dita oficial como a única guardadora do conhecimento válido, de maneira
leviana e irresponsável, muitas vezes acabam por reconhecer saberes onde não
há. Isso se dá tanto no ensino básico quanto no superior. E mesmo na esfera
acadêmica. O que significam atualmente uma infinidade de teses de mestrado e
doutorado, no volume do conhecimento que podemos chamar de válido ou
utilizável, inclusive no campo conceitual? A porcentagem é pequena. Ainda mais
pela distância que hoje se encontra o ensino da realidade.
O mercado, portanto, com seus interesses
puramente econômicos, define os rumos da educação. A escola prepara os
empregados para a máquina de moer subjetividades, contribuindo para a
construção e manutenção desse sistema. As leis legitimam o sistema de títulos e
diplomas, que muitas vezes atesta competência e, especialmente, vocação, mesmo
quando não há.
Mas algo está mudando profundamente. E essa
mudança vem de todos os lados.
Independência Intelectual
Sempre houve no mundo uma permanente
mensagem, surgida há muito tempo em ambientes religiosos e de altos saberes,
que se espalhou pelas sociedades de diversas maneiras: não estamos autorizados a compreender determinados
saberes, laicos ou religiosos, sem que haja um mediador oficial que nos
explique tais conteúdos. E mesmo o mundo tendo mudado radicalmente, tornando a
informação muito mais acessível, derrubando antigas verdades sagradas, algum
ranço mítico permanece. A crença de que determinados autores e saberes são para
poucos, ainda é grande.
A maioria das pessoas nem imagina o quanto
poderia se identificar com o pensamento de determinados autores, caso se
sentisse no direito de possuir, além de raciocínios comuns, raciocínios mais
complexos. A complexidade é própria do ser humano. A vida e o viver são
fenômenos complexos. A natureza é complexa. A sociedade é complexa. O amor é
complexo. No entanto, a maioria da população, talvez por processos traumáticos,
não quer ou acha que não quer, ou apenas acha que não consegue acessar essa
complexidade. Claro que as coisas simples são importantes, indispensáveis. Mas
a excessiva valorização da simplicidade, através de propagandas ilusórias, é
mais um artifício para nos afastar do pensamento crítico, do conhecimento mais
aprofundado.
O conhecimento é e deve ser para todos, é
algo que diz respeito e afeta a todos nós.
A construção autodidata do conhecimento pode
exigir alguma desconstrução do conhecimento tradicional ou formal. Mas o que
colocar no lugar de cada desconstrução? O que, por exemplo, colocar no lugar da
Razão, quando descobrimos que foi um conceito inventado pelos gregos, a partir
de uma lógica enganosa, baseada no modelo piramidal dos egípcios?
Teorias complexas ou simplórias, na maioria
dos casos puras invencionices para obter ou fortalecer poderes, também
inauguraram conceitos como Religião, Progresso, Moral, Capitalismo, Felicidade,
Amor Romântico, Conhecimento Oficial, Futuro ou Amor Materno. É assim que o mundo vai se
construindo.
Mesmo o conceito de Livre Arbítrio é apenas
uma invenção humana. Trata-se de uma das grandes verdades da humanidade. É, no
entanto, apenas uma ideia que alguém teve um dia e a isso deu um nome.
Freudianamente falando, assim como as ideias, nossas escolhas são fenômenos que
se produzem em nós, e não são
produzidos por nós, como gostamos de
acreditar. Essa teoria é cada vez mais comprovada pela ciência. John Barg,
professor de psicologia da Universidade de Yale, Connecticut, Estados
Unidos, diz que "à medida que a pesquisa
evolui, nunca segue no caminho oposto. Não se diz: pensávamos que essas coisas
eram inconscientes, mas descobrimos que são conscientes. Pelo contrário,
pensávamos que tudo era consciente, mas essa crença foi se tornando cada vez
menor". Alan Snyder, pesquisador do Centro da Mente, em Sydney, Austrália,
é ainda mais incisivo: "Somos guiados por nossa mente inconsciente. Uma
grande parte do que fazemos é inconsciente. As decisões que tomamos nos são
quase ditadas".
Por meio de técnicas retóricas, portanto,
criamos teorias, alegorias, regras, valores e representações que parecem
racionais, lógicas e convincentes. Mas uma verdade, para a qual não gostamos
muito de olhar, é que o mundo, na maioria das vezes, foi construído por simples
achismos, por blefes bem sucedidos e, geralmente, mau-intencionados.
Então, como podemos acreditar que esse
sistema educacional, tendo sido criado para abastecer de operários bem
adestrados as fábricas, que surgiram a partir da Revolução Industrial, nos
tornará pessoas criativas, sábias, críticas, felizes?
Diálogo x excesso de opinião
Da mesma forma que a falta de diálogo pode
limitar nossa teia de conhecimentos, o excesso de atenção quanto à opinião
alheia pode ser prejudicial, caso queiramos construir algo original. O excesso
de informação, quando limita nosso tempo para pensarmos por conta própria, pode
fazer o mesmo.
Sobre a opinião alheia, um cuidado logo deve
ser tomado: perceber o quanto essa opinião está relacionada a problemas e
impedimentos pessoais de quem opina. Muitas vezes nos esquecemos do quanto
estamos contaminados por essas que são, geralmente, verdades do medo. O mundo é construído de acordo com o que não
queremos ver, dizia o filósofo francês Jean Paul Sartre. E esse não querer ver,
sem dúvida, inclui nossos maiores temores e limitações pessoais, isso desde as
primeiras histórias míticas.
É importante termos em mente essas questões
sobre as invencionices humanas, para desmontar com mais facilidade opiniões míticas,
fantasiosas, do medo e do impedimento, que pretendem amansar nossas ações e sedimentar
opiniões que ajudem a manter por mais tempo possível o mundo como é.
Uma dessas opiniões mais corriqueiras é a de
que devemos evitar caminhos extremados. Muitas vezes, ao versarem sobre o
budismo, defendem como verdade indiscutível o tal caminho do meio. Em relação ao cristianismo e outras religiões é a
mesma coisa, não importa o termo que se use. A filosofia, há muito tempo também
está impregnada desse conceito. A Doutrina do Meio-Termo, de Aristóteles, é
apenas um entre muitos exemplos.
No entanto, é importante lembrar que tanto os grandes pregadores, quanto os
grandes filósofos, além dos grandes realizadores, por muito tempo de suas vidas
passaram longe do caminho do meio, ou
como se queira chamar. Se chegaram a percorrê-lo, foi somente após terem trilhado
muitas estradas extremas, o que parece uma receita interessante quando se quer
escapar de tantas amarras visíveis e invisíveis, e partir em direção a quem
realmente somos e ao que, de fato, queremos.
A própria humanidade, essa representação
coletiva do indivíduo, ruma ao extremo em todas as direções: das conquistas
tecnológicas, das descobertas científicas, dos valores financeiros e morais, de
tudo que possa ser experimentado. Tudo é experimentado, não há últimas
conseqüências, dá-se o próximo passo antes que se perceba. É claro que devemos
ter o extremo cuidado de não explodirmos o planeta. Mas apesar do caminho a ser
tomado para que isso não ocorra, as perspectivas sempre serão de
experimentações infinitas.
Não é de se suspeitar, portanto, que certo
extremismo faça parte de nossas vocações? A excelência, por exemplo, em
qualquer área de atuação humana, é algo extremo, geralmente uma vontade levada
às últimas conseqüências, uma anormalidade zombando da regra.
É preciso se ter espaço e tempo para experimentar e até para errar. Ouvir
muitos conselhos pode encurtar caminhos, mas também pode fazer com que os
caminhos se tornem curtos demais. O tempo de experimentação individual e
independente é imprescindível, assim como a coragem de desconstruir valores,
signos, opiniões e códigos morais, para reconstruí-los de acordo com nossa
própria subjetividade; sem que seja preciso atropelar o limite dos outros.
Isso, quando for o caso de reconstruir. É provável que muitos saberes e crenças
devam ser apenas pulverizados. Ainda assim, jamais podemos perder a capacidade
de dialogar com o mundo.
A interpretação de textos
Enquanto as interpretações estiverem nas mãos
de apenas alguns, como sempre estiveram, haverá continuidade de domínio
ideológico, por menos ideológica que pretenda ser qualquer espécie de análise.
Não se pode ensinar a interpretar, não há
aprendizado nisso, não no sentido de se aprender a aprender, aprender a criar,
aprender a transformar.
Não podemos, portanto, moldar o pensamento do
aluno dessa forma, nem mesmo como estratégia transitória. É preciso preparar e
encorajar o indivíduo desde cedo, para uma leitura independente, fortalecendo
ao máximo seu potencial interpretativo e criativo, enfim, seu caráter único. É
necessário municiá-lo, o quanto antes, com instrumentos suficientes para que
ele possa fazer sua própria leitura, de qualquer texto, não apenas imprimindo
nisso sua originalidade, como usando-a para ultrapassar os limites dos
significados e trazer à tona novas ideias e concepções.
Essa é a maneira como atuam as mentes mais
criativas e inovadoras do planeta. Então, por que não queremos dar esse passo
adiante, preferindo achatar o ser humano em suas possibilidades criativas e
interpretativas?
Exemplo muito comum de achatamento das
mentalidades é a interpretação de poemas em sala de aula. Elementos sensíveis,
estruturais, rítmicos, sonoros etc, que também podem ser absorvidos apenas pelo
que são, acabam sendo sacrificados em prol de uma interpretação racional, que
não consegue lidar com o inominável. Como se apenas objetos ordenados,
classificados e nomeados, ao contrário da coisa-em-si, pudessem nos ensinar
algo. Mesmo os significados, nem sempre deveriam ser explicados. Pela simples observação
e fruição, podem provocar percepções e ideias para além do que pretendem dizer;
se é que pretendem dizer algo objetivo.
Num trecho de entrevista à filósofa Viviane
Mosé, à sua maneira Rubem Alves aborda essa questão: "Eu me sinto ofendido
quando alguém tenta interpretar meu texto... O que a Cecília Meireles queria
dizer? Agora, graças à gramática, à hermenêutica, vamos dizer o que a Cecília
quis dizer. Mas um poeta nunca queria dizer, ele disse. Está dito... Se eu
quisesse dizer aquilo, teria dito aquilo e não o que eu disse".
Sentir ao invés de pensar, observar ao invés
de determinar, vestir-se do objeto ao invés de tentar traduzi-lo em palavras,
deveriam ser práticas indispensáveis no aprendizado. Ainda sabemos muito pouco
sobre nossas mentes e sobre que características podem ser mais decisivas na
hora de resolvermos problemas ou encontrarmos soluções criativas.
Sem pretender entrar em qualquer questão
religiosa, o Budismo tem uma prática bastante conhecida, que é a da observação
pura e simples. Olhar e ver e deixar que o próprio corpo assimile o que foi visto.
E a partir dessa visão, que nada tem a ver com a reflexão, se ter melhores
ações e escolhas futuras. Essa é uma ideia comum entre as filosofias orientais
.
É também isto que nosso ensino e nossas
crenças têm nos roubado: a capacidade de observar, de lidar com a coisa
tal-qual-ela-é, com o que dali pode ser extraído de conhecimento, quase sempre
nos obrigando a colocar saberes sensíveis, intuitivos, estéticos, espaciais,
éticos e mesmo estruturais ou lógico-racionais, em algum sistema ou compartimento
formal, muitas vezes ilusório e vazio. Essas subtrações ou deseducações, em
muitos casos, são motivadas por vícios relativos à ordem e por conceitos
humanos inventados há séculos ou milênios, quando quase toda a ciência do mundo
era pura fantasia.
A cultura pode ser mais importante que a
educação
A educação, por si, não tem sido suficiente
para responder a diversas necessidades cognitivas humanas, como, por exemplo, o
pensamento independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao
autoconhecimento, a criatividade, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada
à intuição, ou ainda, o senso estético e ético apurados.
A cultura, essa visão ou esse saber cultural
que cada indivíduo carrega consigo, pode garantir essas qualidades, mesmo que
seu portador não possua formação profissional específica ou não tenha estudado
uma só das matérias tradicionais do ensino básico ou superior. Apesar de tantos
trabalhos realizáveis somente a partir de conhecimentos muito específicos, o
indivíduo de maior visão cultural pode rapidamente se tornar apto a realizar
inúmeras tarefas, apenas por possuir conhecimentos que dificilmente seriam
conquistados através da educação como a conhecemos.
A cultura possui esse poder transformador,
porque não é somente construção, é também desconstrução, configuração mutante,
transformação permanente, enquanto a educação é geralmente mais estática,
pré-estabelecida.
E aí entra o papel processador que a cultura
deveria ter em relação à educação. A primeira atua em diferentes saberes do
indivíduo, o que o ajuda a cruzar com maior desenvoltura informações racionais,
emocionais e sensoriais, e com isso obter o que existe de mais caro no mundo de
hoje: idéias. Mais especificamente, idéias originais.
Aprender a desaprender
Estamos esvaziados pelo excesso. Não apenas o
excesso de informação, mas também o de construção, fizeram com que passássemos
do ponto mais propício para uma ampla liberdade criativa e mesmo para o
bem-estar.
Há muito o que ser jogado fora e esquecido, mas
trata-se de uma armadilha tão profunda, que muitas vezes nem sabemos por onde
começar a nos destituir de tantas amarras, armaduras, couraças, além de tantos
entrelaçamentos e conhecimentos ultrapassados. E acima de tudo, de
emburrecimentos.
Além de construções cognitivas, precisamos de
uma educação desconstrutiva, que nos leve a desarmar padrões de comportamento.
Nos últimos quatrocentos anos nos entregamos
de forma radical a olhar o mundo e a vida por meio de compartimentos separados.
Como se a vida e o mundo fossem peças isoladas de um quebracabeças que nunca
precisaria ser montado. Esse conceito se fortaleceu principalmente após o
surgimento da obra Novum Organum, em
1620, de Francis Bacon, que estudou fenômenos e objetos naturais, a partir de
pesagens e medições.
Logo depois, apareceu o Discurso do Método, em 1637, do francês René Descartes, que
transformou profundamente o pensamento ocidental. Foi um marco científico que
levou pesquisadores e pensadores de todo o mundo à "análise ou divisão do
assunto em tantas partes quanto possível e necessário". E o mundo caminhou
assim desde então: dividindo um objeto qualquer, no maior número de partes
possíveis e, com isso, criando cada vez mais compartimentos, especificidades e
ultraespecializações.
Mas, de repente, o sistema se acelerou tanto, que em muitos casos, embora
não todos, essa fragmentação excessiva do conhecimento já não é suficiente para
acompanhar o ritmo da transformação. Hoje, o olhar muito específico,
hiperlocalizado, que não considera as muitas variáveis ao seu redor, começa a
causar danos ao sistema.
O pensamento fragmentado, por exemplo, contribui
para a falta de coordenação dos setores administrativos da sociedade. O
saneamento, o setor de construção, de obras urbanas, de energia elétrica, de
trânsito etc, são tratados como compartimentos desconectados uns dos outros,
embora a realidade exija outra coisa.
A administração das metrópoles é outro
problema. Os municípios de uma região como a Grande São Paulo ou a Grande Belo
Horizonte, são pensados separadamente. O trânsito, o saneamento básico ou os
recursos hídricos no município de São Paulo, porém, estão atrelados ao
trânsito, ao saneamento e aos recursos hídricos das outras cidades da região.
Portanto, não há como solucionar muitos dos problemas sem pensar de forma mais
ampla, múltipla, coordenada, holística.
Por onde começar?
Em muitos casos, a recomendação de iniciarmos
o estudo de uma matéria por suas bases, não passa de um mito didático. Algo que
foi pensado séculos atrás e que nesta época de multitextualidades e pensamentos
em rede, pode já não fazer tanto sentido. Talvez a matemática e a física sejam
um caso à parte, embora não em todas as suas perspectivas.
O vício da ordem se encontra de muitos modos
presente na educação. A divisão em anos escolares é um bom exemplo. Foi uma
escolha feita sem que houvesse comprovação científica de sua eficácia.
Simplesmente alguns acharam que o ensino deveria ser administrado dessa forma,
por questões de ordenamento, e criaram suas teorias enganosas para legitimar a
escolha. Tanto que, hoje, países com sistemas de ensinos mais avançados, e
mesmo o Brasil, já começam a buscar novos modelos e soluções educacionais que
substituam o currículo em séries.
Sobre a ordem dos aprendizados, peguemos a
matéria de História. Parece muito mais efetivo começar por um passado recente.
Enfim, por algo que faça sentido hoje, que esteja relacionado de modo mais
direto às nossas questões atuais. A estratégia deveria ser, em todos os casos e
antes de tudo, a de criar interesse. Não está claro que o desinteresse é de
longe o pior dos problemas na aprendizagem de qualquer matéria?
Começar de qualquer ponto é uma das melhores
possibilidades do autodidatismo. Deixar a mente e o corpo falarem sobre suas
aspirações, até mesmo a partir de estudos inicialmente aleatórios, é algo que
pode sedimentar no indivíduo um interesse permanente pelo estudo, até o fim de
sua vida.
De qualquer modo, tanto para a ideia do
autodidatismo, quanto para a formação tradicional, a resposta é a mesma: devemos
tomar para nós a responsabilidade de nosso conhecimento. Quem não o fizer,
provavelmente ficará em apuros.
O que preciso saber para exercer determinada
profissão? Ou ainda mais especificamente: o que não posso deixar de saber? Sem
dúvida, somos capazes de assumir essas responsabilidades na construção de
nossos saberes. Mas sempre mantendo também esta outra pergunta chave: que
outros conhecimentos acrescentarei a esses indispensáveis, para que eu possa
construir uma teia de conhecimentos que faça transbordar algo de novo, de
singular, algo que traga mais sentido à minha própria vida e valorize minha
passagem por este mundo, e que acima de tudo, faça a sociedade avançar em melhores
direções?
Montando o próprio quebracabeças
O autodidatismo significa a capacidade de o
indivíduo assumir uma nova responsabilidade: a da construção de seu próprio
conhecimento.
A primeira pergunta a ser feita é qual o
conjunto de nossas vocações, de nossos talentos aliados aos nossos interesses. Mas
há ainda outra ideia a ser considerada, talvez a mais decisiva: nossas
respostas mentais e corporais. Não sei se isso é, propriamente, o que
costumamos chamar de intuição. O nome, no caso, não tem muita importância.
Imprescindível é o sentimento, que nos impele ao ato.
Pelo caminho autodidata talvez não saberemos
de antemão como será formatada nossa grade de conhecimentos. Se no currículo
tradicional todo o conteúdo já se encontra previamente organizado, no caminho
independente a história pode mudar e às vezes chegamos em direções opostas das
quais pensamos inicialmente, sendo que esse ponto de chegada pode ser
surpreendentemente positivo.
Encurtar caminhos, portanto, nem sempre é a
melhor estratégia. O conhecimento singular, salvo em raríssimos casos, exige
tempo de maturação. Um precioso tempo que permitirá, em algum ponto, conectar
de forma harmoniosa e aprofundada conhecimento e autoconhecimento.
É claro que também podemos já ter um objetivo
claro do conhecimento que queremos construir. O que nos impede? Nesse caso, o
único cuidado a ser tomado é a certificação de que não estamos sendo
manipulados por pacotes delineados por terceiros, que à primeira vista parecem
caber perfeitamente em nossos sonhos, mas com o tempo tendem a nos limitar ou
entristecer em algum sentido.
Subjetividade
O indivíduo subjetivado se sente mais frequentemente importante diante de
si mesmo. Procura e muitas vezes encontra um caminho para fazer o que mais
gosta, obtendo renda com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar
mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, em
situações de autoaprendizado ou com seu próprio trabalho, que lhe é motivo de
paixão. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras
percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas
em tantos momentos até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e
ficcionais, para usufruto próprio ou alheio.
A construção do próprio conhecimento pode vir
a ser uma das últimas fronteiras do individualismo.
Um trabalho que faça bem ao mundo
Muito diferente do que se queira crer, a
subjetividade humana em nada se assemelha a um egocentrismo, não é uma ilha,
não é contrária à sociedade, é o ser humano em sua melhor forma, na compreensão
de si mesmo e também do mundo que o cerca. A subjetividade mais aprofundada
tende, por isso, a ser mais colaborativa. Por entender de forma crítica e
sensível, acima da propaganda cultural de competição direta e excludente, que
"um mundo melhor é onde todos passam melhor".
Isso não quer dizer que o sujeito subjetivado
seja automaticamente colaborativo. Primeiro ele se pergunta: colaborar em que e
para quem? Essas questões são determinantes. Em que implica o trabalho que
exerço cotidianamente ou mesmo o que realizo quando participo de um projeto
dito colaborativo? O que isso, ao final das contas, gera para o mundo? Para
quem e para que exatamente trabalho, uma vez que quase todos os trabalhos no
mundo fazem aumentar a concentração de renda e causam danos ao meio ambiente? Que
colaboração é essa? O que há por trás de cada um desses discursos? Como posso
trabalhar para construir um mundo realmente melhor e mais benéfico para mim
mesmo?
O indivíduo subjetivado se tornou científico,
mas também artístico, cultural, meditativo, sensível e questionador. Aprendeu a
fazer perguntas. E as perguntas mais importantes neste momento são: que tipo de
conhecimento desejo construir? E por que desejo?
Sobre o autor
Magno Mello é compositor, escritor e pesquisador autodidata.
Possui mais de 110 músicas gravadas. Desenvolveu o estudo de Poética Musical,
sobre os elementos, ferramentas e conexões que estruturam uma letra de música.
Em 2010 recebeu o Prêmio Interações Estéticas, MinC/Funarte. Há sete anos
ministra cursos, workshops e palestras pelo país sobre o assunto, em instituições
culturais e de ensino. Seu primeiro romance, "Trustália - uma quase
distopia", acaba de ser lançado, no Brasil e em Portugal, pela Chiado
Editora.
Links e contatos:
https://www.facebook.com/magno.mello.92
https://www.facebook.com/magnomelloarte/?ref=hl
magnomello5@gmail.com
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