sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Manifesto Autodidata


Manifesto Autodidata

 

Por que os atuais modelos de educação em quase todo o mundo estão em declínio? Quais as ferramentas que hoje podemos acessar para construir nossa própria teia de conhecimentos e nossa profissão diferenciada? Por que o autodidatismo está se tornando cada vez mais usual e poderá vir a ser normatizado num futuro próximo? Quais são as características e possibilidades desse modo de aprendizado?

As primeiras respostas são simples: o conhecimento se encontra cada vez mais descentralizado, diversificado, mutante e à disposição de todos. Além disso, tão diferentes dos modelos anteriores, algumas das principais exigências profissionais e, consequentemente, educacionais, passaram a ser criatividade, capacidade de autoaprendizagem, subjetividade e pensamento crítico.

Há hoje uma profunda e urgente necessidade de profissionais com essas qualidades no mercado. Um dos principais motivos é que as empresas, em todos os seus setores, caso pretendam permanecer no mercado, têm como tarefa imprescindível a inovação. Portanto, precisam como nunca precisaram, de profissionais criativos e inovadores.

Trata-se de um fenômeno inédito na história da humanidade. Chega a ser irônico o atual momento do mundo, em que a máquina de poder, que sempre foi a maior responsável pelo achatamento das mentalidades, agora, para continuar funcionando precisa tornar a população mais educada, mais inteligente e mais crítica. Do contrário, não haverá criatividade suficiente para sustentar a estrutura cada vez mais complexa e revolucionária.

Já respondendo a essa demanda, mesmo sem nos darmos conta, temos nos tornado mais autodidatas no trabalho, na escola e em nossos saberes pessoais. E caso queiramos construir nosso futuro sem permitir que outros o construam por nós, é preciso pensar em como gastaremos o tempo de estudo, para juntar as peças de nosso quebracabeça diferenciado, único, preferencialmente de acordo com nossas mais íntimas aspirações profissionais e ao mesmo tempo de vida.

Por outro lado, ninguém pode ser inteiramente autodidata. Os conhecimentos são transmitidos de uma pessoa para outra, desde o início da humanidade; e até antes. E não é preciso dizer que ainda hoje necessitamos, tanto quanto em outras épocas, de pessoas que nos transmitam seus conhecimentos, sem os quais não construímos nossa teia cognitiva.

Mas em que medida os atuais atravessadores da educação colaboram para uma educação positiva e o quanto diminuem nosso poder de autoaprendizagem, além de nossa subjetividade, criatividade e originalidade?

Uma coisa é certa: não existe um modelo ideal de educação, por não haver modelo ideal de cognição e muito menos de comportamento. A ideia do que deveria ser a forma de ensino mais adequada, também se torna obscura em função da acelerada transformação da sociedade, que vai se tornando cada vez mais imprevisível quanto aos seus próximos mercados, estruturas e comportamentos.

 

A verdade que ninguém quer admitir é que, atualmente, muito pouco se sabe para que mundo educar o aluno, e se saberá cada vez menos.

 

Não é uma das tarefas mais simples, porém, imaginar que devamos hoje mesmo iniciar esse processo de independência intelectual, embora o possamos fazer. O próprio conceito de autoaprendizagem, um dos mais citados nas novas propostas oficiais de educação em todo o mundo, em certa medida oficializa o autodidatismo.

 

A questão, portanto, torna-se a seguinte: como organizar e combinar os saberes a nosso favor, de um modo que nos faça ser o máximo possível nós mesmos e nos permita explorar o melhor de nosso potencial, para que ofereçamos isso ao mundo, menos adequando-nos a ele e mais o transformando com nossa contribuição única?

 

Os donos da educação

 

A escola, como hoje a conhecemos, das matérias abordadas, mais utilitaristas e menos humanistas, até o fato de ter se voltado para as massas, foi instituída a partir da Revolução Industrial, para suprir o gigantesco novo mercado de trabalho que se formou com o avanço das máquinas.

 

O mercado, portanto, desde essa época vêm determinando os conteúdos escolares e, por consequência, o que hoje entendemos por educação. A própria educação, em muitos sentidos, foi uma das maiores responsáveis pela construção do mundo em que hoje vivemos. Nossos valores e comportamentos, além do cenário social e a estrutura econômica mundial, enfim, esse caos de desigualdades, guerras, destruição ambiental, consumo desenfreado etc, de muitas maneiras foram e continuam sendo moldados ou incentivados pela escola.

 

É difícil aceitar o fato de que as escolas jogam a favor desse sistema. Mas o fazem. Achatam nossa criatividade e subjetividade, além de nosso pensamento crítico. Tentam nos impor a vontade e as ideologias dos mais poderosos, incentivando a desigualdade. Subtraem o valor de nosso tempo, ao nos transmitir conteúdos que logo serão esquecidos. Mesmo o que resta de conhecimento, pouco contribui para nos tornar pessoas melhores, mais benéficas ao mundo e mais felizes. Incutem ideias de competição selvagem, de tantos modos que sequer podemos contabilizar, em pequenas observações, críticas, condenações, punições e retaliações cotidianas. "Se não estudar, morrerá pobre". "Quer ficar rico, estude". Isso, num mundo onde cabe somente uma pequena fração da população no grupo dos ricos.

 

Mas esses são apenas dois meros exemplos entre tantos outros. Sem contar os "burros" que não aprendem. Os "preguiçosos" que não se esforçam. Os "mal-criados" que desafiam o professor. Os "cabeças de vento" que não prestam atenção na aula. E o que dizer da organização das carteiras, que nos faz parecer um produto numa esteira de fábrica? E sobre as matérias nauseantes; os professores despreparados e autoritários; a não observação das vocações e dos talentos individuais; a teoria pura em detrimento da prática; o decoreba em detrimento do raciocínio; as matérias desconectadas umas das outras; a permanente reafirmação de como o mundo deve funcionar?

 

As leis, por sua vez, ao reconhecerem a escola dita oficial como a única guardadora do conhecimento válido, de maneira leviana e irresponsável, muitas vezes acabam por reconhecer saberes onde não há. Isso se dá tanto no ensino básico quanto no superior. E mesmo na esfera acadêmica. O que significam atualmente uma infinidade de teses de mestrado e doutorado, no volume do conhecimento que podemos chamar de válido ou utilizável, inclusive no campo conceitual? A porcentagem é pequena. Ainda mais pela distância que hoje se encontra o ensino da realidade.

 

O mercado, portanto, com seus interesses puramente econômicos, define os rumos da educação. A escola prepara os empregados para a máquina de moer subjetividades, contribuindo para a construção e manutenção desse sistema. As leis legitimam o sistema de títulos e diplomas, que muitas vezes atesta competência e, especialmente, vocação, mesmo quando não há.

 

Mas algo está mudando profundamente. E essa mudança vem de todos os lados.

 

Independência Intelectual

 

Sempre houve no mundo uma permanente mensagem, surgida há muito tempo em ambientes religiosos e de altos saberes, que se espalhou pelas sociedades de diversas maneiras: não estamos autorizados a compreender determinados saberes, laicos ou religiosos, sem que haja um mediador oficial que nos explique tais conteúdos. E mesmo o mundo tendo mudado radicalmente, tornando a informação muito mais acessível, derrubando antigas verdades sagradas, algum ranço mítico permanece. A crença de que determinados autores e saberes são para poucos, ainda é grande.

 

A maioria das pessoas nem imagina o quanto poderia se identificar com o pensamento de determinados autores, caso se sentisse no direito de possuir, além de raciocínios comuns, raciocínios mais complexos. A complexidade é própria do ser humano. A vida e o viver são fenômenos complexos. A natureza é complexa. A sociedade é complexa. O amor é complexo. No entanto, a maioria da população, talvez por processos traumáticos, não quer ou acha que não quer, ou apenas acha que não consegue acessar essa complexidade. Claro que as coisas simples são importantes, indispensáveis. Mas a excessiva valorização da simplicidade, através de propagandas ilusórias, é mais um artifício para nos afastar do pensamento crítico, do conhecimento mais aprofundado.

 

O conhecimento é e deve ser para todos, é algo que diz respeito e afeta a todos nós.

 

A construção autodidata do conhecimento pode exigir alguma desconstrução do conhecimento tradicional ou formal. Mas o que colocar no lugar de cada desconstrução? O que, por exemplo, colocar no lugar da Razão, quando descobrimos que foi um conceito inventado pelos gregos, a partir de uma lógica enganosa, baseada no modelo piramidal dos egípcios?

 

Teorias complexas ou simplórias, na maioria dos casos puras invencionices para obter ou fortalecer poderes, também inauguraram conceitos como Religião, Progresso, Moral, Capitalismo, Felicidade, Amor Romântico, Conhecimento Oficial, Futuro ou Amor Materno. É assim que o mundo vai se construindo.

 

Mesmo o conceito de Livre Arbítrio é apenas uma invenção humana. Trata-se de uma das grandes verdades da humanidade. É, no entanto, apenas uma ideia que alguém teve um dia e a isso deu um nome. Freudianamente falando, assim como as ideias, nossas escolhas são fenômenos que se produzem em nós, e não são produzidos por nós, como gostamos de acreditar. Essa teoria é cada vez mais comprovada pela ciência. John Barg, professor de psicologia da Universidade de Yale, Connecticut, Estados Unidos, diz que "à medida que a pesquisa evolui, nunca segue no caminho oposto. Não se diz: pensávamos que essas coisas eram inconscientes, mas descobrimos que são conscientes. Pelo contrário, pensávamos que tudo era consciente, mas essa crença foi se tornando cada vez menor". Alan Snyder, pesquisador do Centro da Mente, em Sydney, Austrália, é ainda mais incisivo: "Somos guiados por nossa mente inconsciente. Uma grande parte do que fazemos é inconsciente. As decisões que tomamos nos são quase ditadas".

 

Por meio de técnicas retóricas, portanto, criamos teorias, alegorias, regras, valores e representações que parecem racionais, lógicas e convincentes. Mas uma verdade, para a qual não gostamos muito de olhar, é que o mundo, na maioria das vezes, foi construído por simples achismos, por blefes bem sucedidos e, geralmente, mau-intencionados.

 

Então, como podemos acreditar que esse sistema educacional, tendo sido criado para abastecer de operários bem adestrados as fábricas, que surgiram a partir da Revolução Industrial, nos tornará pessoas criativas, sábias, críticas, felizes?

 

Diálogo x excesso de opinião

 

Da mesma forma que a falta de diálogo pode limitar nossa teia de conhecimentos, o excesso de atenção quanto à opinião alheia pode ser prejudicial, caso queiramos construir algo original. O excesso de informação, quando limita nosso tempo para pensarmos por conta própria, pode fazer o mesmo.

 

Sobre a opinião alheia, um cuidado logo deve ser tomado: perceber o quanto essa opinião está relacionada a problemas e impedimentos pessoais de quem opina. Muitas vezes nos esquecemos do quanto estamos contaminados por essas que são, geralmente, verdades do medo. O mundo é construído de acordo com o que não queremos ver, dizia o filósofo francês Jean Paul Sartre. E esse não querer ver, sem dúvida, inclui nossos maiores temores e limitações pessoais, isso desde as primeiras histórias míticas.

 

É importante termos em mente essas questões sobre as invencionices humanas, para desmontar com mais facilidade opiniões míticas, fantasiosas, do medo e do impedimento, que pretendem amansar nossas ações e sedimentar opiniões que ajudem a manter por mais tempo possível o mundo como é.

 

Uma dessas opiniões mais corriqueiras é a de que devemos evitar caminhos extremados. Muitas vezes, ao versarem sobre o budismo, defendem como verdade indiscutível o tal caminho do meio. Em relação ao cristianismo e outras religiões é a mesma coisa, não importa o termo que se use. A filosofia, há muito tempo também está impregnada desse conceito. A Doutrina do Meio-Termo, de Aristóteles, é apenas um entre muitos exemplos.

 

No entanto, é importante lembrar que tanto os grandes pregadores, quanto os grandes filósofos, além dos grandes realizadores, por muito tempo de suas vidas passaram longe do caminho do meio, ou como se queira chamar. Se chegaram a percorrê-lo, foi somente após terem trilhado muitas estradas extremas, o que parece uma receita interessante quando se quer escapar de tantas amarras visíveis e invisíveis, e partir em direção a quem realmente somos e ao que, de fato, queremos.

 

A própria humanidade, essa representação coletiva do indivíduo, ruma ao extremo em todas as direções: das conquistas tecnológicas, das descobertas científicas, dos valores financeiros e morais, de tudo que possa ser experimentado. Tudo é experimentado, não há últimas conseqüências, dá-se o próximo passo antes que se perceba. É claro que devemos ter o extremo cuidado de não explodirmos o planeta. Mas apesar do caminho a ser tomado para que isso não ocorra, as perspectivas sempre serão de experimentações infinitas.

 

Não é de se suspeitar, portanto, que certo extremismo faça parte de nossas vocações? A excelência, por exemplo, em qualquer área de atuação humana, é algo extremo, geralmente uma vontade levada às últimas conseqüências, uma anormalidade zombando da regra.

 

É preciso se ter espaço e tempo para experimentar e até para errar. Ouvir muitos conselhos pode encurtar caminhos, mas também pode fazer com que os caminhos se tornem curtos demais. O tempo de experimentação individual e independente é imprescindível, assim como a coragem de desconstruir valores, signos, opiniões e códigos morais, para reconstruí-los de acordo com nossa própria subjetividade; sem que seja preciso atropelar o limite dos outros. Isso, quando for o caso de reconstruir. É provável que muitos saberes e crenças devam ser apenas pulverizados. Ainda assim, jamais podemos perder a capacidade de dialogar com o mundo.

 

A interpretação de textos

 

Enquanto as interpretações estiverem nas mãos de apenas alguns, como sempre estiveram, haverá continuidade de domínio ideológico, por menos ideológica que pretenda ser qualquer espécie de análise.

 

Não se pode ensinar a interpretar, não há aprendizado nisso, não no sentido de se aprender a aprender, aprender a criar, aprender a transformar.

 

Não podemos, portanto, moldar o pensamento do aluno dessa forma, nem mesmo como estratégia transitória. É preciso preparar e encorajar o indivíduo desde cedo, para uma leitura independente, fortalecendo ao máximo seu potencial interpretativo e criativo, enfim, seu caráter único. É necessário municiá-lo, o quanto antes, com instrumentos suficientes para que ele possa fazer sua própria leitura, de qualquer texto, não apenas imprimindo nisso sua originalidade, como usando-a para ultrapassar os limites dos significados e trazer à tona novas ideias e concepções.

 

Essa é a maneira como atuam as mentes mais criativas e inovadoras do planeta. Então, por que não queremos dar esse passo adiante, preferindo achatar o ser humano em suas possibilidades criativas e interpretativas?

 

Exemplo muito comum de achatamento das mentalidades é a interpretação de poemas em sala de aula. Elementos sensíveis, estruturais, rítmicos, sonoros etc, que também podem ser absorvidos apenas pelo que são, acabam sendo sacrificados em prol de uma interpretação racional, que não consegue lidar com o inominável. Como se apenas objetos ordenados, classificados e nomeados, ao contrário da coisa-em-si, pudessem nos ensinar algo. Mesmo os significados, nem sempre deveriam ser explicados. Pela simples observação e fruição, podem provocar percepções e ideias para além do que pretendem dizer; se é que pretendem dizer algo objetivo.

 

Num trecho de entrevista à filósofa Viviane Mosé, à sua maneira Rubem Alves aborda essa questão: "Eu me sinto ofendido quando alguém tenta interpretar meu texto... O que a Cecília Meireles queria dizer? Agora, graças à gramática, à hermenêutica, vamos dizer o que a Cecília quis dizer. Mas um poeta nunca queria dizer, ele disse. Está dito... Se eu quisesse dizer aquilo, teria dito aquilo e não o que eu disse".

 

Sentir ao invés de pensar, observar ao invés de determinar, vestir-se do objeto ao invés de tentar traduzi-lo em palavras, deveriam ser práticas indispensáveis no aprendizado. Ainda sabemos muito pouco sobre nossas mentes e sobre que características podem ser mais decisivas na hora de resolvermos problemas ou encontrarmos soluções criativas.

 

Sem pretender entrar em qualquer questão religiosa, o Budismo tem uma prática bastante conhecida, que é a da observação pura e simples. Olhar e ver e deixar que o próprio corpo assimile o que foi visto. E a partir dessa visão, que nada tem a ver com a reflexão, se ter melhores ações e escolhas futuras. Essa é uma ideia comum entre as filosofias orientais

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É também isto que nosso ensino e nossas crenças têm nos roubado: a capacidade de observar, de lidar com a coisa tal-qual-ela-é, com o que dali pode ser extraído de conhecimento, quase sempre nos obrigando a colocar saberes sensíveis, intuitivos, estéticos, espaciais, éticos e mesmo estruturais ou lógico-racionais, em algum sistema ou compartimento formal, muitas vezes ilusório e vazio. Essas subtrações ou deseducações, em muitos casos, são motivadas por vícios relativos à ordem e por conceitos humanos inventados há séculos ou milênios, quando quase toda a ciência do mundo era pura fantasia.

 

A cultura pode ser mais importante que a educação

 

A educação, por si, não tem sido suficiente para responder a diversas necessidades cognitivas humanas, como, por exemplo, o pensamento independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao autoconhecimento, a criatividade, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada à intuição, ou ainda, o senso estético e ético apurados.

 

A cultura, essa visão ou esse saber cultural que cada indivíduo carrega consigo, pode garantir essas qualidades, mesmo que seu portador não possua formação profissional específica ou não tenha estudado uma só das matérias tradicionais do ensino básico ou superior. Apesar de tantos trabalhos realizáveis somente a partir de conhecimentos muito específicos, o indivíduo de maior visão cultural pode rapidamente se tornar apto a realizar inúmeras tarefas, apenas por possuir conhecimentos que dificilmente seriam conquistados através da educação como a conhecemos.

 

A cultura possui esse poder transformador, porque não é somente construção, é também desconstrução, configuração mutante, transformação permanente, enquanto a educação é geralmente mais estática, pré-estabelecida.

 

E aí entra o papel processador que a cultura deveria ter em relação à educação. A primeira atua em diferentes saberes do indivíduo, o que o ajuda a cruzar com maior desenvoltura informações racionais, emocionais e sensoriais, e com isso obter o que existe de mais caro no mundo de hoje: idéias. Mais especificamente, idéias originais.

 

 

Aprender a desaprender

 

Estamos esvaziados pelo excesso. Não apenas o excesso de informação, mas também o de construção, fizeram com que passássemos do ponto mais propício para uma ampla liberdade criativa e mesmo para o bem-estar.

 

Há muito o que ser jogado fora e esquecido, mas trata-se de uma armadilha tão profunda, que muitas vezes nem sabemos por onde começar a nos destituir de tantas amarras, armaduras, couraças, além de tantos entrelaçamentos e conhecimentos ultrapassados. E acima de tudo, de emburrecimentos.

 

Além de construções cognitivas, precisamos de uma educação desconstrutiva, que nos leve a desarmar padrões de comportamento.

 

Nos últimos quatrocentos anos nos entregamos de forma radical a olhar o mundo e a vida por meio de compartimentos separados. Como se a vida e o mundo fossem peças isoladas de um quebracabeças que nunca precisaria ser montado. Esse conceito se fortaleceu principalmente após o surgimento da obra Novum Organum, em 1620, de Francis Bacon, que estudou fenômenos e objetos naturais, a partir de pesagens e medições.

 

Logo depois, apareceu o Discurso do Método, em 1637, do francês René Descartes, que transformou profundamente o pensamento ocidental. Foi um marco científico que levou pesquisadores e pensadores de todo o mundo à "análise ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário". E o mundo caminhou assim desde então: dividindo um objeto qualquer, no maior número de partes possíveis e, com isso, criando cada vez mais compartimentos, especificidades e ultraespecializações.

 

Mas, de repente, o sistema se acelerou tanto, que em muitos casos, embora não todos, essa fragmentação excessiva do conhecimento já não é suficiente para acompanhar o ritmo da transformação. Hoje, o olhar muito específico, hiperlocalizado, que não considera as muitas variáveis ao seu redor, começa a causar danos ao sistema.

 

O pensamento fragmentado, por exemplo, contribui para a falta de coordenação dos setores administrativos da sociedade. O saneamento, o setor de construção, de obras urbanas, de energia elétrica, de trânsito etc, são tratados como compartimentos desconectados uns dos outros, embora a realidade exija outra coisa.

 

A administração das metrópoles é outro problema. Os municípios de uma região como a Grande São Paulo ou a Grande Belo Horizonte, são pensados separadamente. O trânsito, o saneamento básico ou os recursos hídricos no município de São Paulo, porém, estão atrelados ao trânsito, ao saneamento e aos recursos hídricos das outras cidades da região. Portanto, não há como solucionar muitos dos problemas sem pensar de forma mais ampla, múltipla, coordenada, holística.

 

Por onde começar?

 

Em muitos casos, a recomendação de iniciarmos o estudo de uma matéria por suas bases, não passa de um mito didático. Algo que foi pensado séculos atrás e que nesta época de multitextualidades e pensamentos em rede, pode já não fazer tanto sentido. Talvez a matemática e a física sejam um caso à parte, embora não em todas as suas perspectivas.

 

O vício da ordem se encontra de muitos modos presente na educação. A divisão em anos escolares é um bom exemplo. Foi uma escolha feita sem que houvesse comprovação científica de sua eficácia. Simplesmente alguns acharam que o ensino deveria ser administrado dessa forma, por questões de ordenamento, e criaram suas teorias enganosas para legitimar a escolha. Tanto que, hoje, países com sistemas de ensinos mais avançados, e mesmo o Brasil, já começam a buscar novos modelos e soluções educacionais que substituam o currículo em séries.

 

Sobre a ordem dos aprendizados, peguemos a matéria de História. Parece muito mais efetivo começar por um passado recente. Enfim, por algo que faça sentido hoje, que esteja relacionado de modo mais direto às nossas questões atuais. A estratégia deveria ser, em todos os casos e antes de tudo, a de criar interesse. Não está claro que o desinteresse é de longe o pior dos problemas na aprendizagem de qualquer matéria?

 

Começar de qualquer ponto é uma das melhores possibilidades do autodidatismo. Deixar a mente e o corpo falarem sobre suas aspirações, até mesmo a partir de estudos inicialmente aleatórios, é algo que pode sedimentar no indivíduo um interesse permanente pelo estudo, até o fim de sua vida.

 

De qualquer modo, tanto para a ideia do autodidatismo, quanto para a formação tradicional, a resposta é a mesma: devemos tomar para nós a responsabilidade de nosso conhecimento. Quem não o fizer, provavelmente ficará em apuros.

 

O que preciso saber para exercer determinada profissão? Ou ainda mais especificamente: o que não posso deixar de saber? Sem dúvida, somos capazes de assumir essas responsabilidades na construção de nossos saberes. Mas sempre mantendo também esta outra pergunta chave: que outros conhecimentos acrescentarei a esses indispensáveis, para que eu possa construir uma teia de conhecimentos que faça transbordar algo de novo, de singular, algo que traga mais sentido à minha própria vida e valorize minha passagem por este mundo, e que acima de tudo, faça a sociedade avançar em melhores direções?

 

 

 

Montando o próprio quebracabeças

 

O autodidatismo significa a capacidade de o indivíduo assumir uma nova responsabilidade: a da construção de seu próprio conhecimento.

 

A primeira pergunta a ser feita é qual o conjunto de nossas vocações, de nossos talentos aliados aos nossos interesses. Mas há ainda outra ideia a ser considerada, talvez a mais decisiva: nossas respostas mentais e corporais. Não sei se isso é, propriamente, o que costumamos chamar de intuição. O nome, no caso, não tem muita importância. Imprescindível é o sentimento, que nos impele ao ato.

 

Pelo caminho autodidata talvez não saberemos de antemão como será formatada nossa grade de conhecimentos. Se no currículo tradicional todo o conteúdo já se encontra previamente organizado, no caminho independente a história pode mudar e às vezes chegamos em direções opostas das quais pensamos inicialmente, sendo que esse ponto de chegada pode ser surpreendentemente positivo.

 

Encurtar caminhos, portanto, nem sempre é a melhor estratégia. O conhecimento singular, salvo em raríssimos casos, exige tempo de maturação. Um precioso tempo que permitirá, em algum ponto, conectar de forma harmoniosa e aprofundada conhecimento e autoconhecimento.

 

É claro que também podemos já ter um objetivo claro do conhecimento que queremos construir. O que nos impede? Nesse caso, o único cuidado a ser tomado é a certificação de que não estamos sendo manipulados por pacotes delineados por terceiros, que à primeira vista parecem caber perfeitamente em nossos sonhos, mas com o tempo tendem a nos limitar ou entristecer em algum sentido.

 

Subjetividade

 

O indivíduo subjetivado se sente mais frequentemente importante diante de si mesmo. Procura e muitas vezes encontra um caminho para fazer o que mais gosta, obtendo renda com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, em situações de autoaprendizado ou com seu próprio trabalho, que lhe é motivo de paixão. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas em tantos momentos até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e ficcionais, para usufruto próprio ou alheio.

 

A construção do próprio conhecimento pode vir a ser uma das últimas fronteiras do individualismo.

 

 

Um trabalho que faça bem ao mundo

 

Muito diferente do que se queira crer, a subjetividade humana em nada se assemelha a um egocentrismo, não é uma ilha, não é contrária à sociedade, é o ser humano em sua melhor forma, na compreensão de si mesmo e também do mundo que o cerca. A subjetividade mais aprofundada tende, por isso, a ser mais colaborativa. Por entender de forma crítica e sensível, acima da propaganda cultural de competição direta e excludente, que "um mundo melhor é onde todos passam melhor".

 

Isso não quer dizer que o sujeito subjetivado seja automaticamente colaborativo. Primeiro ele se pergunta: colaborar em que e para quem? Essas questões são determinantes. Em que implica o trabalho que exerço cotidianamente ou mesmo o que realizo quando participo de um projeto dito colaborativo? O que isso, ao final das contas, gera para o mundo? Para quem e para que exatamente trabalho, uma vez que quase todos os trabalhos no mundo fazem aumentar a concentração de renda e causam danos ao meio ambiente? Que colaboração é essa? O que há por trás de cada um desses discursos? Como posso trabalhar para construir um mundo realmente melhor e mais benéfico para mim mesmo?

 

O indivíduo subjetivado se tornou científico, mas também artístico, cultural, meditativo, sensível e questionador. Aprendeu a fazer perguntas. E as perguntas mais importantes neste momento são: que tipo de conhecimento desejo construir? E por que desejo?

 

 

 

Sobre o autor

 

Magno Mello é compositor, escritor e pesquisador autodidata. Possui mais de 110 músicas gravadas. Desenvolveu o estudo de Poética Musical, sobre os elementos, ferramentas e conexões que estruturam uma letra de música. Em 2010 recebeu o Prêmio Interações Estéticas, MinC/Funarte. Há sete anos ministra cursos, workshops e palestras pelo país sobre o assunto, em instituições culturais e de ensino. Seu primeiro romance, "Trustália - uma quase distopia", acaba de ser lançado, no Brasil e em Portugal, pela Chiado Editora.

 

 

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